domingo, 11 de dezembro de 2011

o porta-retrato


Aquele era o começo de mais um devaneio: seus olhos “pousavam” confortavelmente naquela antiga foto, a qual nunca tivera coragem de desapegar.
Encarava a cena através das lentes de seus óculos, enquanto seu pensamento senil e cansado pairava as profundezas de suas lembranças. Vivera ele, um dia, o amor? Sim, vivera! E de uma forma tão bruta, que não se dera ao luxo de reviver a experiência. Pura covardia? Não. Apenas respeito à memória daquela que o encantara.
Mas, se o sentimento que o cercava era tão avassalador, não poderíamos dizer que era paixão, ao invés de amor? Complexo demais para explicar, mas... Não. Outro sentimento muito mais profundo fazia com que sua vivência ganhasse outro sentido, uma interpretação diferente daquela que deveria ser.
Seus cabelos brancos apenas o faziam lembrar que muito tempo se passara desde o triste ocorrido que marcara e entristecera sua vida até aquele momento. Depois do que acontecera, seus olhos não expressaram mais o mesmo brilho e seus sorrisos não tinham mais alegria... Não a alegria verdadeira que se vê no rosto de quem vive com intensidade. Tornara-se um homem triste e solitário, mas não por falta de gente a seu redor; se bem que, aos poucos, muitas pessoas foram sumindo, deixando-o verdadeiramente solitário em meio à pilha de livros empoeirados que se encontravam em sua casa.
Seus filhos foram, gradativamente, saindo daquela casa e vivendo suas vidas: quase nunca apareciam, apenas em ocasiões especiais, para visitar seu velho pai. Seus netos? Muito pequenos, ainda crianças, não conseguiriam questioná-lo tão profundamente quanto ele gostaria.
Era tão velho assim, este senhor? Não. Mas o tempo o castigara de diversas formas: física e psicologicamente, ficara debilitado e não raciocinava mais com o mesmo otimismo. Ficara com um egoísmo imenso estampado em seu corpo, em sua alma.
Um sentimento muito forte ainda o prendia àquela situação desagradável... Ninguém o compreendia o bastante para entender sua mania de nunca esquecer o passado. Não compreendiam ou nunca fizeram questão de compreender? Ambos. As pessoas sempre estavam ocupadas demais com seus próprios interesses para se importarem com os outros. Aliás, sempre será assim...
Ele imaginava como poderia ter sido, se aquilo não tivesse acontecido aos dois. Sim, aos dois! Aquela fora uma fatalidade para ambos.
Seus olhos encaravam ainda mais a foto, tentando recordar os momentos felizes que vivera... Tudo em vão! Sua mente não reconhecia mais sentimentos positivos, e essas recordações se tornavam apenas algo vago, um vazio que não fora preenchido.
Ela estava tão linda e tão jovem naquela foto! Poderia até dizer que estava radiante! Sua alegria encantava a todos!
Pobre senhor! Fora reduzido a lembranças vazias e dolorosas...
Voltando ao que interessa: o amor! Ele a amava o suficiente para desejar sua felicidade eterna, mesmo que não fosse ao seu lado. O suficiente para deixa-la ir... E deixou!
Na época, sua amada estava doente e sem muitas expectativas de vida... Isso o magoava muito, mas ele sabia que existia uma ordem natural, e que esta deveria ser respeitada. Deixou que a vida seguisse seu curso. Ela, por outro lado, não queria vê-lo sofrer, por isso tomou uma decisão: sabendo que não lhe restava muito tempo de vida, resolveu ir embora por alguns dias, se afastar; pediu que ele não a procurasse e ele a obedeceu. Foi por amor!
Mas esse ato de não procurá-la, de “desistir” tão facilmente, o deixou extremamente culpado. Culpa. Exatamente! Era esse o sentimento que o prendia ao sofrimento.
Bem, chegamos ao ponto principal da história.
Outro detalhe importante fora omitido até o momento: aquele senhor, que sofrera tanto durante anos, nunca conseguira chorar pelo o que acontecera, nunca conseguira chorar por ela. Suas lágrimas ficaram contidas pelo choque emocional que tivera e pela raiva que sentia de si mesmo.
Era um triste e revoltado homem que não voltara a seu estado normal. Infeliz? É. Talvez. Quem conseguiria a felicidade plena e eterna, guardando tanta mágoa e tanto rancor em seu interior? Ninguém, presumo. E ele ainda tinha que conviver com a presença dela dentro daquela casa! Tudo fazia com que lembrasse o que viveram. Era como se ela ainda estivesse lá!
Gostaria de tê-la visto pela última vez, de ter segurado sua mão em seus últimos momentos, de ter dito o quanto a amava. Mas não o fizera.
Possuía uma fotografia dela, mas não uma dos dois juntos. Era frustrante! Não tinha provas registradas do amor que vivera a seu lado. E os filhos? Não eram provas? Eram. Mas não era suficiente para ele. Continuava a sentir-se como um coadjuvante em sua própria história!
Perdera o porta- retrato que ela lhe dera de presente em um de seus aniversários, antes do casamento. Maldição! Lá se encontrava a tão almejada fotografia que provava a união deles.
Uma extensa agonia o aterrorizava cada vez que chegava a esse específico pensamento. Levantou-se com dificuldade da escrivaninha em que estava sentado, colocou a foto dentro de seu livro predileto e foi até um velho armário que se encontrava no mesmo local: a velha biblioteca da casa.
Embora vivesse “enfurnado” ali, não mexera no respectivo armário durante anos e, quando o abriu, escondida bem ao fundo, encontrava-se uma caixa. Ficara extremamente ansioso – algo que não acontecera nos últimos tempos – e curioso. Abriu a caixa com uma paciência de quem esperara durante anos, mas que conseguiria aguentar a ansiedade por mais alguns segundos.
Para sua surpresa, dentro da caixa estava um envelope destinado a ele e, embaixo deste, o porta-retrato com a foto que tanto procurara. Sua emoção foi gigantesca! Foi nascendo dentro de seu peito uma sensação maravilhosa, de bem-estar.
Vagarosamente, voltou para a escrivaninha, posicionou o porta-retrato à sua frente e passou a admirar a fotografia dos dois juntos: felizes, jovens e enérgicos!
Ele observava a foto enquanto tossia, pois também estava doente.
Intrigado, abriu o envelope e se deparou com uma carta de sua amada explicando tudo o que acontecera:
Não sei se o que fiz foi correto, mas eu não poderia deixar que você sofresse ainda mais por minha causa. Quando soube que não me restavam muitos dias de vida, resolvi ir embora para que você seguisse sua vida plenamente. Fui embora para que você fosse feliz, na esperança de que encontrasse outra pessoa que o amasse tanto quanto eu. Fiz isso por amor, e só por amor... Achei que deveria deixa-lo livre para viver algo especial! mas não querer vê-lo, ter medo de te encontrar triste próximo a mim, foi uma covardia minha! Fui covarde e tive medo de encarar a situação. Espero que você me perdoe por isso.”
Enquanto lia a carta, emocionado, lágrimas escorriam freneticamente em seu rosto: finalmente voltara a chorar.
Com tudo o que fora revelado naquela carta, ele conseguiu falar tudo o que gostaria de ter dito pessoalmente a ela:
- Claro que eu te perdoo meu amor! Quero que você também me perdoe por eu ter te deixado ir, sem vê-la pela última vez. – falando sozinho – Você foi o meu “algo especial.”
Naquele momento, sentiu-se livre! Liberto de todo o sofrimento, perdoando a sua amada e a si mesmo. Ao mesmo tempo, era como se a alma dela também estivesse livre... Sua presença agoniante sumiu da casa, dando lugar a uma lembrança doce e alegre, se instalando no coração daquele senhor.
Ele, muito agradecido e satisfeito, foi repousando parte de seu corpo sobre a escrivaninha, demonstrando certo cansaço – Estava na hora de descansar!
Assim que seus olhos se fecharam, seu coração parou de bater, seu corpo tornou-se apenas matéria oca. A presença de sua amada se desprendera completamente daquela casa.
Assim, a alma de cada um deles pôde seguir seu caminho separadamente.